Archive for the ‘Cansei de ser Poliana!’ Category

Úteros dominados

janeiro 14, 2011

Na sala de espera do meu ginecologista, junto aos folhetos explicativos e umas duas grávidas, encontrei um jornaleco religioso sobre saúde, e essa edição tinha como discussão central o aborto. Eu que adoro polêmicas fui degustá-lo, e ainda não consegui digerir, daí a razão desse post.

Mais parecia um tablóide medieval encontrado numa igreja, atrás das fogueiras que queimavam bruxas. Como eram textos radicais, tentei enxergar através da proposta. Li pérolas como ”o aborto não é uma questão sobre a qual a mulher tem direito de escolher”. Êxodo21:22-25, “Deus dá a mesma punição a alguém que comete um homicídio a quem causa a morte de um bebê no útero”. Ok, fundamentalismos à parte, e se a vida da mãe estiver em risco?

A legislação permite que seja feito o aborto de um filho programado, que por desencontros biológicos se tornou fatal para seus responsáveis. Me parece no mínimo digno. E parece digno à teologia cristã (citação presente no jornalzinho) que “Deus é capaz de realizar milagres, preservando as vidas de uma mãe e da sua criança, apesar de todos os indícios médicos contra isso”. Desculpem, isso parece lavagem cerebral.

E o que me assustou mesmo foi saber que abortar um filho resultante de estupro seria um duplo erro, já que a ‘criança’ nada tem a ver com os “atos malignos de seu pai” – mas a mãe tem né? Por isso ela tem o ‘dever’ de carregar ‘seja-lá-o-que-estiver-na-barriga’, pari-lo e criá-lo. Ah, nesse caso ela pode doá-lo,  que nem cachorro. Já diz Nando Reis,“não vou me adaptar”. Eu também não.

Posto aqui a minha tristeza profunda e indisgestão intensa. Sou incapaz de enxergar o mundo através dessa ótica e menos ainda de compactuar com ela. É exatamente esse tipo de pensamento machista, retrógrado, alienador e ilusório que aliado à moral relativista aumenta o número de mulheres mortas em clínicas de aborto clandestinas.

Perseverar nisso, atrasa qualquer tipo de tentativa de avanço.

A favor da bárbárie, avante úteros! Só não esqueçam do anticoncepcional…

 

Cansei de ser Poliana…

Teste do Cachorro Quente

agosto 27, 2010

Ontem pela primeira vez comemos bêbados cachorro quente. Já tava na hora. Depois do charme, do jantar, o barzinho sorridente, jantar de novo, outras vezes se sentar, outras bla bla bla bla. Todas as anteriores remetem a algo extremamente gostoso e polido, o que a gente normalmente fala que é ‘bonito de ver’. Todas, exceto o cachorro quente.

Particularmente, adoro comer coisas do tipo: cachorro quente cheio-de-coisa-dentro no fim da noite, mas sempre deixei pra fazer isso com as minhas amigas, afinal, é bem constrangedor ficar se lambendo e catando os milhos na frente do cara. DO CARA. Normalmente com eles opto por um prensado que é bem menos viking, e mata a fome no fim da noite. Mas não foi o que aconteceu.

Resumindo, pedimos cada um um duplo especial (calculem) e ele no alto de sua ingenuidade na dança da conquista pediu um profiterolis.  Bom, entregaram o monstro no carro e eu já tinha passado dos 6 decigramas admitidos há muito tempo. Comi feito um animal, foi prato no chão, molho na blusa, um espetáculo digno do circo dos horrores. Pra fechar com chave de ouro, aquele profiterolis. Ah, nem teço comentários, apesar desse não ser um blog estritamente feminino, espero que todos entendam a nossa relação com chocolate e sorvete (que foram pra blusa também, claro.)

Vale lembrar que a sujeira foi gostosa se isso for compreensível para vocês. Não lembro ao certo o tamanho da inadequação, mas imagino maior que o duplo especial. O ‘teste do cachorro quente’… ele me viu bêbada, no fim da noite, feito um bicho.

Gabriela, no coquetel do filme da Penélope, me convidou pra escrever no blog. Na hora do ocorrido quis escrever sobre isso. Se me permitem, a pauta dentro do teste do cachorro quente é: a dificuldade nossa de juntar beleza+prazer=adequação/aprovação. Essa é a  mais difícil de todas as equações femininas, não existe paradigma que me assuste mais, do que o paradigma da aprovação.
Vale lembrar que esse paradigma não existe dentro das ciências exatas, nem no behaviorismo. Ok, eu crio um imaginário só pra tentar ilustrar:

S+ ___/_____APROVAÇÃO?

S+ é  estímulo, qualquer coisa boa. _____/____é a quebra da contingência. Essa quebra  muda o status adequação/aprovação. Salvem os gritos e sussurros de Gabriela, que me mataria se eu dissesse que esse o status além de fruto do estímulo não seria também interação. Afinal: Comer feito um animal no carro dele é o teste do cachorro quente que me deixa pensando nas minhas inseguranças. No meio dos lobos é ser filha, oras.

Ok, ok. Gabriela que se foda, eu quero mesmo é aprender mais essa variante: tem caminho para a NÃO NECESSIDADE de aprovação independente de auto-estima? Bom, porque se tiver estamos salvas da fogueira e da análise. Tal seria se não necessitássemos ser aprovados, ou mesmo se não a buscássemos o tempo todo. Insuportáveis humanos seríamos. As vezes vomito aqui e ali sobre a questão da aprovação, mas é completamente perceptível à razão que ela nos motiva, impulsiona, ou nos reforça, já dizia Skinner não exatamente dessa forma.

Mas sobra ou fica alguma coisa, né? Senão porra, seriam conteúdos inatos apenas? É instinto (nego os conteúdos de Penélope), e eu não quero admitir isso, portanto é melhor achar que é inato mesmo. É só o que consigo inferir agora. O que mais seria eu, toda bonitinha, comendo quase sem as mãos na frente DO CARA?

SOMOS SERES DE RELAÇÃO, PRONTO. Acho que no fundo, ou bem na superfície, o que eu quero mesmo é ser aprovada. Eu quero crítica, grito, falácia. Eu preciso de retorno. No máximo solidária, generosa… não.

Cansei de ser Poliana!